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22.05.2011
Julgamento
de " A Filha Rebelde "
Um ex-director do Teatro D. Maria II questionou hoje em tribunal se é
possível “manchar a honorabilidade” de um responsável por uma polícia
política, referindo-se ao último director da PIDE, Silva Pais. Carlos
Fragateiro respondia no Tribunal Criminal de Lisboa (TCL) a uma queixa
de âmbito privado por parte de dois sobrinhos do major Silva Pais,
relativa à peça “A Filha Rebelde”, de Margarida Fonseca Santos, levada à
cena naquele teatro nacional, em 2007. Além de Fragateiro, a queixa
recai sobre o director adjunto José Manuel Castanheira e a dramaturga
Margarida Fonseca Santos, que adaptou para teatro o livro “A Filha
Rebelde”, de José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz. Na opinião dos
queixosos, o texto levado à cena difama e ofende a memória do último
director da polícia política extinta no 25 de Abril de 1974. “É-me
extremamente difícil entender que possa haver alguma mancha na
honorabilidade de alguém que foi director daquela polícia política”,
afirmou Fragateiro perante o tribunal. “Enquanto homens de cultura, é
nossa obrigação trabalhar a memória”, declarou, sublinhando que o que
lhe interessou foi contar “a história fascinante da filha do
director da
PIDE que se apaixonou pela Revolução Cubana e por Che Guevara, viveu na
ilha das Caraíbas e nunca perdeu os laços afectivos com o pai, que eram
recíprocos”. O ex-director Teatro Nacional qualificou a acusação como um
ato de censura e invocou que os herdeiros de Silva Pais tiveram
conhecimento do texto da peça antes da estreia e pediram que alguns
textos fossem alterados. A resposta da direcção do teatro foi negativa
por considerar que “isso seria um ato de censura” e que o texto só
poderia ser mudado em concordância entre a autora e a encenadora. A peça
em causa, sublinhou Fragateiro, é “um texto ficcionado, ainda que
baseado em factos reais”. Na acção interposta por Carlos Alberto Mano
Silva Pais, a residir em Zurique, e Berta Maria Mano da Silva Pais
Ribeiro estão em causa expressões sobre o “desaparecimento” de Humberto
Delgado e a frase “abafe-me esse general” proferidas na peça por duas
personagens conotadas com o inspector Rosa Casaco e o major Silva Pais.
“A última coisa que precisamos é que alguém encontre o corpo e nos
incrimine” e “vai ser silenciado no dia 13” são outras falas da peça
contestadas pela acusação, que considera que dão a entender que Silva
Pais foi autor do crime que resultou na morte de Humberto Delgado em
Fevereiro de 1965 em Vilanueva del Fresno, Espanha. A advogada dos
assistentes perguntou várias vezes aos dois ex-responsáveis do
Nacional se tinham conhecimento do acórdão do Tribunal Militar de
Santa Clara com os nomes dos julgados e condenados pelo assassínio
do “General sem Medo”. Carlos Fragateiro e José Manuel Castanheira,
os únicos arguidos ouvidos hoje em tribunal, alegaram que a peça não
pretendia retratar Silva Pais mas a filha deste, Ana, mulher de um
diplomata, que foi viver para Cuba, teve
grande
admiração por Che Guevara e lutou pela
revolução cubana. “Era muito mais sobre a complexidade de um pai que
gosta de uma filha”, indicou. “O que na peça possa ser atribuído a Silva
Pais é do senso comum, é um sentimento partilhado por todos os
portugueses”, disse Carlos Fragateiro, sublinhando que “não é lícito
desvirtuar os factos”. Fez notar que a PIDE era uma organização
“hierárquica”, o major Silva Pais foi o “topo da pirâmide entre
1960/1961 até 1974” e “Rosa Casaco foi o inspector da PIDE responsável
pelo desaparecimento de Humberto Delgado em 1965”. No final da
audiência, Carlos Fragateiro foi mais longe: “Fomos muito soft na
abordagem da PIDE, hoje se tivesse um teatro faria mesmo um espectáculo
sobre a PIDE, sobre o Silva Pais e seria muito mais duro e eficaz”. O
julgamento prossegue no dia 12, com a audição da autora da peça,
Margarida Fonseca Santos. No dia 27, serão ouvidos José Manuel
Castanheira e Berta Silva Pais Ribeiro. Por acordo entre as partes, o
tribunal prescindiu do depoimento de Carlos Alberto Mano Silva Pais –
por residir em Zurique e por “motivos de saúde”. Arrolados como
testemunhas – tanto pela acusação como pela defesa – estão José Pedro
Castanheira e Valdemar Cruz, autores do livro “A Filha Rebelde”.
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do tribunal |