lusofonia
Menino brasileiro


 

“Barco Negro”, de Amália Rodrigues, património cultural brasileiro

Mae Preta

Sem dúvida que o filme português que teve mais sucesso mundial foi “Os Amantes do Tejo”, uma produção Luso-francesa. Realizado em 1955 por Henri Verneuil e interpretado, entre outros, por Daniel Gélin, Françoise Arnoul e a saudosa Diva do Fado português, Amália Rodrigues. O sucesso deste filme foi sobretudo a chave do sucesso de Amália Rodrigues com o célebre fado-canção “Barco Negro”.

A UNESCO reconheceu o Fado Português como Património Imaterial da Humanidade
a partir do 27 novembro 2011 e não há dúvida que Amália, com o “Barco Negro”, contribuiu muito para isso. Sinto-me orgulhoso como português, mas tenho que me render à verdade histórica e render homenagem a “Caco Velho”, aliás Matheus Nunes, falecido em 1971.

É que “Barco Negro” antes intitulado “Mãe Preta”, nunca foi património português mas sim brasileiro. “Caco Velho” escreveu esta canção em 1930. Foi inspirado por uma velha imagem de cartão que “Caco Velho” teria encontrado na casa familiar (ver imagem), que nasceu o texto de “Mãe Preta”, descrevendo a escravidão e a “ama preta” que toma cuidados carinhosos com os filhos do branco.

“Mãe Preta” chegou a Portugal nos primeiros anos da década de 50 pela voz da fadista Maria da Conceição. Esta versão
portuguesa foi um êxito colossal. Até que, de repente, a “Mãe Preta” deixou de se ouvir nas rádios. E as pessoas interrogavam-se sobre este brusco silêncio...

Tema muito sensível para qualquer ditadura e, em especial, a ditadura colonialista portuguesa muito agitada, que se debatia já com alguns problemas sérios nas províncias ultramarinas, a canção foi simplesmente proibida pela Comissão de Censura.

Caco Velho e Amalia RodriguesO poeta David Mourão Ferreira (1927-1966), solicitado pelo regime para alterar o texto da música, transfere para a voz profunda de Amália Rodrigues um texto impregnado da tragédia de um amor quebrado pelo mar, sob o título de "Barco Negro", com o qual a Diva percorrerá o Mundo.

Em certos discos antigos de Amália, como o da canção do filme cuja apresentação de Amália é tomada em carga por
Ray Ventura, encontra-se a menção de “Barco Negro (“Mãe Preta”)”. Mas em nenhuma das gravações Amália cantou o
texto original.

Esta canção foi atribuída sem razão ao património português, pois que se trata de uma canção puramente brasileira. Conheceu um primeiro registro em 1943, pelo grupo brasileiro Tocantins, antes de ser registrada igualmente por Gilda Valença e Éster de Abreu em 1954.

Mesmo sendo indiscutível que Amália Rodrigues tenha sido a responsável pela projeção universal desta canção - através
do filme os “Amantes do Tejo” - e que talvez a canção jamais nem seria conhecida pelo grande público amante do Fado,
seria um ato injusto esconder a paternidade legítima do artista brasileiro “Caco Velho”.

Amigo Matheus Nunes, não sei para onde a morte te levou aos 51 anos de idade, mas, estejas onde estiveres, certamente virás a saber que neste espaço da Revista Contato pensei em ti.
 

"Mãe Preta" (versão original censurada)
Cantado por Alciony Menegaz (1952)

"Barco Negro" ( Letra de David Mourão Ferreira)
Cantado por Amália Rodrigues (1954)

Fonte: Guilherme da Costa e Revista Contato

Bookmark and Share